Leia nas entrelinhas ou finja que entendeu.

Publicado: fevereiro 2, 2012 em not comedy
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De tantas nuanças penso que mudanças são como matanças.

Da cor de minhas forçadas maçãs.

Da dor de minhas falsas maçãs.

Sabe aquelas que afastam os lábios e deixam os dentes amostra?

Pois é, bem por aí.

Comentários
  1. ANGÉLICA! disse:

    Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu.
    É algo que estimula minha autocomiseração.
    Uma inexistência que machucava, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e se não era amor, então era o que?
    Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranquila e estava sem planos. Estava bem sintonizada.
    E de uma dia para o outro… estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena.
    Parece o final de um amor. Mas não era amor. O que era?
    Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol.
    Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro.
    Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga.
    Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento.
    Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias perguntas.
    Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho ser lógica para entender minha própria confusão.
    Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto.

    Se não era amor, Bruno, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero. Uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e voltei a pé pra casa, avariada.
    Eu sei, Bruno, não precisa me dizer outra vez. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas.
    Onde é que eu estava com a cabeça, Bruno, de acreditar em contos de fadas? De achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência?
    Será que eu nunca amei você?
    Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada.
    Não era amor. Era uma sorte?
    Não era amor. Era sacanagem?
    Não era amor. Era competição?
    Não era amor, era maior. Era melhor.

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